‘A credibilidade de Cavaco’

Quando confrontado por Francisco Lopes com o ‘caso BPN’, Cavaco Silva ignorou o assunto. Defensor Moura voltou à carga e o Presidente optou pela vitimização. Por fim, em resposta a dúvidas de Manuel Alegre, decidiu atacar a atual administração do BPN. Ou seja, quando os seus amigos andavam a brincar com o fogo fez negócios com eles; quando o caso rebentou, manteve-se em silêncio; quando Dias Loureiro mentiu ao Parlamento veio em sua defesa; quando o BPN foi nacionalizado assinou por baixo; e só resolve abrir a boca para criticar quem, mal ou bem, recebeu o presente envenenado.

Mas o silêncio, a vitimização e a fuga para a frente não o salvam dos esclarecimentos que tem de dar. E ninguém quer saber das suas poupanças familiares. Cavaco Silva e a filha compraram ações da SLN, empresa detentora do BPN e sem cotação na bolsa. Foi definido, sabe-se lá com que critérios, o preço de um euro por ação. Dois anos depois vendeu as mesmas ações por 2,4 euros e teve um lucro de 147,5 mil euros (e 209,4 para a filha). Ações de uma empresa que, mesmo com as contas aldrabadas, dava um lucro anual insignificante. Os preços de venda e de compra foram definidos pela SLN. Na administração da sociedade estavam um ex-secretário de Estado, um ex-ministro que Cavaco viria a nomear para o Conselho de Estado e vários membros da sua atual Comissão de Honra. Se Cavaco quer matar o assunto em que ele próprio se enfiou é simples: explica porque teve um tratamento de favor na venda de ações.

Por enquanto, a suspeita é esta: a entrada de Cavaco Silva para o grupo acionista da SLN, mesmo com a certeza de que a sociedade iria perder dinheiro com a compra e venda das ações, teria como única função a utilização do seu nome para credibilizar a empresa junto de outros investidores. Se esta suspeita se confirmar, o caso tem relevância política. Afinal de contas, o buraco do BPN é agora de todos nós. O assunto é sujo? Claro que sim. Mas quem não se quer enfiar na lama tem cuidado com quem faz negócios, política ou as duas coisas em simultâneo. É fundamental saber em que tipo de gente confia um chefe de Estado. E se, consciente ou inconscientemente, andou a oferecer a sua credibilidade a quem não devia. Mais ainda, quando Cavaco Silva faz dela o seu único argumento político. Precisamos de saber se a pôs a render.

Desilusão

Quando Fernando Nobre anunciou a sua candidatura fiquei satisfeito. Imaginei que acrescentasse ao debate alguns temas que costumam estar distantes deste tipo de campanhas, como a política externa ou os direitos humanos. Que desse mundo à nossa política provinciana. A desilusão não podia ter sido maior. O discurso de Nobre vive quase exclusivamente do ódio aos políticos. Guinando para a esquerda e para a direita, ao sabor de calculismos eleitorais, o não político desta campanha tornou-se no mais politiqueiro de todos os candidatos. Porque está, apesar disto, mal nas sondagens? Porque até para o populismo é preciso traquejo. Portugal perdeu um bom ativista humanitário. Ganhou um fraco demagogo. É pena mas não espanta. É muitas vezes no calor das campanhas que as melhores pessoas mostram o pior de si. E os amadores costumam fazê-lo com maior espalhafato.

Texto publicado por Daniel Oliveira na edição do Expresso de 8 de janeiro de 2011

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