‘Dar tempo ao tempo’

As pessoas que eu estudo também não tinham o tempo todo, também elas estavam sob o mesmo efeito do futuro, puxando-as para cima como um corpo cheio de ar à tona de água. Inexoravelmente, mês após mês, uma oportunidade só de cada vez.

“Chegou maio de 1768”. “Chegou novembro de 1768”. “Chegou, finalmente, o dia 6 de junho de 1775”. “Veio o verão e passou o verão; chegou o Natal de 1775”.
Estou escrevendo um livro que se passa entre 1768 e 1777. “Estou escrevendo” é uma forma de expressão — na verdade, há mais de dez anos que o faço. Como entre maio de 1768 e março de 1777 passaram quase dez anos, isso significa que já trabalho há mais tempo no livro do que o tempo que levaram a passar os acontecimentos que eu estudo. Já demorei mais tempo neste tempo do que o tempo que ele demorou consigo mesmo.
Isto não tem nada de especial; é comum entre os historiadores das guerras napoleónicas, ou da Guerra Civil de Espanha que se leve décadas felizes estudando uns poucos anos infelizes. Os historiadores da Revolução Francesa podem dedicar a carreira inteira a mastigar o que aconteceu entre julho de 1789 e o termidor de 1794, meros e quase exatos cinco anos depois.
Pelos meus pecados, porém, não tenho passados estes mais de dez anos inteiros olhando para aqueles quase dez anos que passaram há 230 anos. Só às vezes mergulho dois ou três dias — com sorte um pouco mais — no século XVIII, para logo me interromper ou ser interrompido com distrações, telefonemas e visitas à internet, crónicas e resoluções.
As distrações são subrepticiamente inquietantes mas, no fundo tentadoras, tanto faz se bem-vindas ou mal-vindas.Verdadeiramente angustiantes são os bloqueios. Como acabar este parágrafo? Precisarei ainda de desenvolver esta ideia ou tê-la-ei já sufocado em palavras até à morte? Como começar aquele capítulo?
É aí que vêm em meu socorro os meses, escritos em cartões e pregados a uma cortiça aqui ao meu lado. “Veio o verão e passou o verão; chegou o Natal de 1775. A corte abandonou Lisboa e acompanhou a família real até Salvaterra de Magos” — e por aí fora. A sucessão deles lembra-me — enquanto tento suster a respiração para me aguentar mais uns minutos no passado — que as pessoas que eu estudo também não tinham o tempo todo, que também elas estavam sob o mesmo efeito do futuro, puxando-as para cima como um corpo cheio de ar à tona de água. Inexoravelmente, mês após mês, uma oportunidade só de cada vez. Chegou maio de 1768. Novembro de 1768. Chegou, finalmente, o dia 6 de junho de 1775. Foi muito esperado. E passou rápido.
Ia agora a escrever: “há dois tipos de historiadores, aqueles que se fascinam pelas diferenças do passado e aqueles que se impressionam pela nossa condição comum e, de certa forma, perene”. Mas, na verdade, não há. Há apenas um tipo de historiador, oscilantemente fascinado por cada uma dessas coisas, ou às vezes simultaneamente fascinado por ambas as coisas. Mesmo quando se exalta vendo que as grandes determinantes existenciais — o amor, o poder, a morte — parecem ser sempre as mesmas, logo repara como afinal a maneira de lidar com o amor, o poder e a morte foi sujeita a enormes alterações com o tempo.
Mas notar essas diferenças não é entendê-las. Para tentar sequer chegar lá perto, é preciso muito mais tempo. É preciso dar tempo ao tempo. Preciso — digo eu, já aflito — ganhar tempo para o tempo. E, enquanto o penso, chegou 2011.

Publicado por Rui Tavares no Jornal Publico a 1 de Dezembro 2011

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