‘Três maneiras de falhar’

O ocidente, incluindo nesta designação a União Europeia e os Estados Unidos da América, gasta cada vez mais dinheiro em serviços secretos, de informação e espionagem. Quanto, muitas vezes não se sabe; nos EUA, o montante dedicado a tais atividades é secreto por lei. Mas numa investigação feita pelo Washington Post, chegou-se à conclusão de que quase um milhão de pessoas trabalha na área. Na Europa, a acrescentar aos serviços nacionais, Bruxelas lá vai conquistando mais uma base de dados, mais competências para a Europol, mais uma “situation room” desde que seja “state of the art”. Nada se nega aos “secretos”: mais pessoal, mais meios, mais segredo.

Grande parte desses meios servem para monitorar o que se passa no mundo árabe. Pois bem, porque não souberam prever que o mundo árabe ia entrar em revolução?

Não, não é apenas porque ninguém conseguiu prever. É também porque colaboravam ativamente com as ditaduras na região e faziam passar a mensagem destas. O Vice egípcio, Omar Suleiman, velho conhecido do pentágono, era o homem dos sequestros e da tortura, a Tunísia e Marrocos os países da tortura terciarizada.

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Isto não é só dinheiro mal gasto; é política mal feita. Os nossos governos conheciam demasiado bem os regimes árabes. Nós conhecíamos mal as sociedades árabes. Não conhecíamos as suas classes médias, nem os seus pobres, nem os seus jovens, nem as suas mulheres, nem as suas organizações. Qualquer bolseiro de mestrado que passasse três meses no Egito saberia mais sobre aquela sociedade do que Catherine Ashton, a chefe da diplomacia europeia.

Um jornal com colaboradores arabófonos (se as nossas universidades os formassem) e uma ligação à internet teria visto incontáveis páginas no Facebook convocando manifestações e bloguers que, do Bahrein a Marrocos, têm dezenas de milhares de leitores diários. Obcecados com a religião, não vemos que o fator fundamental aqui é a língua, que permite que toda esta gente veja os mesmos canais de televisão.

Assim esperamos que saia no New York Times, e depois traduzimos. Mas Nova Iorque está do outro lado do Atlântico. Rabat está a seiscentos quilómetros de Lisboa. Conhecemos nós, ao menos, a sociedade marroquina?

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A política de imigração europeia está dependente de apenas uma pessoa. Não se chama Cecilia Malsmtröm, — para quem desconhece, uma comissária liberal sueca que detém essa pasta. Não se chama sequer Durão Barroso. Chama-se Muhamar Khadaffi e há quarenta e dois anos que é ditador na Líbia.

Se Khadaffi cair — como eu desejo ardentemente que caia — que fará a Europa sem o seu estado-tampão anti-imigrante? É a Líbia khadaffiana que manda os imigrantes da África subsariana morrer no deserto antes que eles desembarquem nas nossas costas. Nós pagamos-lhe bom dinheiro dos bolsos do contribuinte europeu e — no caso italiano — damos-lhe meios militares para que possamos viver na ilusão de uma política irrealista.

Pode ser que o ditador líbio não caia mas sabemos todos que, após a Praça Tahrir, essa possibilidade é de mais do que zero. Se for o caso, em verdade vos digo, ninguém na Europa sabe o que fazer.

Estas três coisas têm consequências. A cumplicidade com ditadores já teve consequências. A ignorância voluntária tem consequências. E a impreparação para o futuro terá consequências. Para os árabes, e para nós.

Publicado por Rui Tavares no Jornal Público no dia 22 de Fevereiro de 2011

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