Manifesto: Um Novo Impulso

Resolução da Assembleia Geral Extraordinária

17 de abril de 2016

Os desafios que enfrentamos

  1. As ideias neoliberais tornaram-se prevalentes graças a um esforço persistente e bem orquestrado levado a cabo nas últimas décadas. Em particular, tornaram-se hegemónicas nos media, que as reproduzem não como a ideologia que são, mas como descrição objetiva da realidade. A ideia de que há alternativa às políticas de direita na economia, nas finanças e no plano social, a nível nacional, europeu ou global ainda tem, apesar da crise iniciada em 2008, dificuldade em conquistar credibilidade política, e isso explica a crise de identidade vivida por muitos partidos de origem social‑democrata.
  2. Reconhecemos que há grandes dificuldades em construir um discurso identitário forte à esquerda, e que a evolução política recente abriu caminho a um preocupante recrudescimento da extrema-direita, mas observamos também novos e promissores desenvolvimentos orientados para a construção de soluções e propostas políticas alternativas. São disso exemplo a candidatura democrata de Bernie Sanders nos Estados Unidos, o movimento dos indignados em Espanha e as suas expressões eleitorais, o novo governo de esquerda na Grécia, a eleição de Jeremy Corbyn como líder do Labour no Reino Unido e, no plano nacional, os resultados das eleições legislativas de outubro de 2015 que desencadearam um novo ciclo político de governação comprometido com um caminho alternativo à austeridade.

Os pressupostos de que partimos

  1. Reconhecemos e valorizamos o papel indispensável dos partidos políticos em democracia, mas sabemos também que estes não esgotam nem devem dominar todo o espaço da participação política. Assumimos a absoluta necessidade de uma cidadania política e socialmente ativa que, complementarmente aos partidos, seja também geradora de ação coletiva, consequente e útil.
  2. Somos uma associação política de ativistas que não se propõem constituir em partido ou integrar forças partidárias já existentes, que partilham uma mesma identidade ideológica e um mesmo espírito de abertura e que estão dispostos a dar parte do seu tempo e energia por uma sociedade mais justa, mais solidária, mais democrática, mais decente, mais sustentável e mais inspiradora. É neste espaço de cidadania política não partidária que inscrevemos a nossa vocação e vontade de intervir.

O que queremos vir a ser

  1. Queremos ser um instrumento de combate às falácias e aos perigos do pensamento dominante, contribuindo para dar às pessoas meios de reflexão, argumentação e construção de uma leitura crítica da realidade que vença a lógica perniciosa do senso comum. É neste sentido que nos vemos como um espaço de formação e produção coletiva de pensamento e discurso político, especialmente vocacionado para quem não tenha filiação partidária, partilhe do nosso código identitário e procure ser um ator pela construção de uma maioria social e política de esquerda.
  2. Queremos também que a Manifesto seja um espaço descentralizado de desenvolvimento do ativismo dos seus membros. Importa assim que estes se organizem em espaços regionais, de modo a criar capacidade de iniciativa em qualquer ponto do país, num espírito de abertura democrática guiado por princípios comuns e de acordo com decisões coletivamente deliberadas.

O nosso posicionamento no atual contexto político

  1. Vemos nos resultados das eleições legislativas de outubro de 2015 uma enorme oportunidade que valorizamos e pretendemos desenvolver, e um contexto único no panorama europeu, em que partidos de esquerda vistos até agora apenas como forças de protesto passaram a contribuir para a governação.
  2. Somos fiéis à nossa matriz identitária de juntar forças para que alternativas políticas e políticas alternativas inspiradas pela esquerda possam fazer caminho. É por este motivo que estamos no campo social e político que apoia este novo ciclo de governação de uma natureza simultaneamente imprevisível e promissora, sem abdicar, contudo, de um ponto de vista próprio. Afirmamo-nos como um fórum autónomo dos partidos que suportam o atual governo, mas capaz de contribuir para a sustentabilidade e desenvolvimento dos acordos que o legitimam.
  3. Queremos que a nossa intervenção se paute pela solidariedade com a maioria parlamentar perante as pressões a que inevitavelmente estará sujeita, mas sabemos também que os constrangimentos internos e externos e o equilíbrio de forças na Assembleia da República envolvem incertezas e riscos significativos, dificultando a discussão de questões difíceis, mas de importância estratégica. Num momento em que os partidos que apoiam o governo não poderão deixar de estar focados em questões legítimas de natureza tática e negocial, e em que as restrições orçamentais europeias assumirão uma importância crítica, é indispensável – mas não suficiente – fortalecer o diálogo entre as forças partidárias de esquerda. Importa também trabalhar para desenvolver espaços não partidários de encontro, mobilização e construção de posicionamentos coletivos. É aqui que a ação da Manifesto se inscreve.
  4. Neste contexto, consideramos ser útil suscitar e alimentar o debate em torno de questões como a renegociação da dívida pública e privada como condição para a recuperação, a arquitetura da União Europeia e da União Monetária, a intervenção pública no sistema financeiro, a coesão territorial, o trabalho, a segurança social, a reforma do Estado, a descentralização política e o poder local, a reformulação do sistema de representação política, as políticas urbanas e a coesão social, ou o papel dos subsistemas de saúde no financiamento do setor privado em Portugal, só para assinalar alguns exemplos, para além da agenda mediática de curto prazo.

Os próximos passos

  1. Para dar seguimento a esta estratégia, a Fórum Manifesto deverá dispor de uma plataforma eletrónica própria de produção, partilha, arquivo e publicação regular de conteúdos. Paralelamente, a Fórum Manifesto deverá lançar iniciativas regulares de reflexão da esquerda e organizar uma grande reunião anual no formato “Universidade de Verão”, procurando que tenha a maior visibilidade.
  2. Estas iniciativas devem ter como objetivo envolver uma pluralidade de intervenientes, pautar-se pela qualidade técnica e política das intervenções e pela clareza das opçõespara que possam tornar-se relevantes no panorama do debate político e dar forma à ação política à esquerda.
  3. A intervenção da Fórum Manifesto no espaço público deverá obedecer a um plano de atividades pragmático e exequível. Pragmático porque pretende ser útil, focando-se na aposta em temas fulcrais na ótica do atual contexto político e numa ótica de longo prazo que recorra à experiência histórica das últimas décadas para abrir perspetivas de futuro. Exequível porque sabemos que a nossa capacidade de intervenção depende exclusivamente do trabalho voluntário dos membros da Manifesto e de todos os que connosco queiram colaborar.
  4. É fundamental mobilizar as energias que a expectativa dos cidadãos tem mantido em estado latente. A Fórum Manifesto, pela experiência acumulada daqueles que a criaram, fizeram e fazem crescer, tem condições para, em Portugal e neste momento, dar um contributo relevante para a construção de uma nova hegemonia política e ideológica de esquerda.
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