Em 2026, trabalhemos para uma nova energia à esquerda
Resolução da Assembleia Geral
28 de março de 2026
- O terramoto político de 2024-2025
As eleições de maio do ano passado alteraram substancialmente o quadro político nacional. As esquerdas sofreram a sua maior derrota eleitoral desde o 25 de abril. O Partido Socialista perdeu 850 mil votos desde a sua maioria absoluta de 2022. Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português perderam, respetivamente, 425 mil e 262 mil votos face à sua melhor votação de 2015, ou seja, 77% e 59% dos que lhes ofereceram o voto após a Troika. Todos estes números estão bem distantes dos votos conquistados pelo Livre neste período (218 mil).
Mais de um milhão e quatrocentos mil votantes deram o seu voto ao partido da extrema-direita, alcandorando-o ao segundo lugar em número de deputados. A direita obteve pela primeira vez uma maioria de dois terços dos deputados, o que alimenta expectativas revanchistas de alguns dos seus setores, desejosos de transformar a natureza democrática do regime constitucional e de dominar parte significativa do aparelho de Estado, designadamente os seus órgãos de fiscalização.
O fenómeno, não sendo específico de Portugal e correspondendo a uma tendência que se vinha afirmando nos últimos anos, representa contudo um choque da maior envergadura, que não deixará de afetar, de forma duradoura, o panorama político português.
As eleições autárquicas de outubro confirmaram a viragem à direita. O PSD ganha em toda a linha, ao que acresce a dimensão politicamente simbólica das vitórias em Lisboa e no Porto. A extrema-direita, longe dos objetivos definidos, não deixa de obter votações expressivas para um partido ainda sem verdadeira implantação no território. À esquerda, o PS mantém uma assinalável força nacional, embora perdendo a maioria na ANMP e na ANAFRE, a CDU mantém a tendência de perda, que a reconquista de algumas presidências de câmara não atenua, o BE é praticamente varrido do cenário autárquico e mesmo o Livre tem resultados modestos.
Contrariando esta tendência geral, a eleição de António José Seguro para Presidente da República, impediu o domínio quase absoluto das direitas nos órgãos de poder. O governo sofreu uma primeira derrota eleitoral de vulto, em resultado do desastre eleitoral do candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS. Contudo, os candidatos apoiados pelo Bloco, PCP e Livre tiveram resultados exíguos, em grande medida decorrentes da concentração de votos em António José Seguro logo na 1ª volta. Ao mesmo tempo, os candidatos André Ventura e Cotrim de Figueiredo viram reforçada a sua relevância política à direita.
- Como se chegou aqui?
Procurar entender a situação atual, em toda as suas dimensões sociais e políticas, é um primeiro passo para preparar uma nova etapa do combate que urge travar.
Mas para tal, é indispensável tentar compreender os fatores que determinaram ou influenciaram o atual estado de coisas. Se quisermos adotar uma perspetiva de intervenção política, que não se conforma com o estado atual das coisas, teremos que passar a uma análise mais profunda, com vista à busca de novos caminhos de ação política. A começar por analisar o que conduziu à transferência de voto popular para a extrema-direita.
Parece inquestionável que os ventos da onda reacionária que assolam a Europa e outras partes do mundo, nomeadamente os EUA, chegaram agora a Portugal. Cavalgando o descontentamento social, em grande medida provocado pela explosão das desigualdades sociais, pela degradação das condições de vida ou o esgotamento de expectativas da sua melhoria, essa nova onda encontrou nas novas formas de comunicação de massas, os meios para a disputa da hegemonia cultural e ideológica, especialmente entre os mais jovens e setores das classes trabalhadoras. Muitos dos “de baixo”, que faziam estruturalmente parte da abstenção, foram cativados pelo discurso da extrema-direita.
O individualismo, impulsionado também pela desregulação dos mercados de trabalho e pela fragilização das formas de organização coletiva, no mundo laboral e popular, afetou a capacidade de atração dos ideais de emancipação e de transformação social, tanto no plano político, como no plano cultural. Tornou-se campo fértil para a promoção, especialmente entre segmentos mais jovens, da ideologia ultraliberal.
Mas se tudo isso parece hoje evidente, seria irresponsável não atender a fatores nacionais, aqueles que se desenvolvem no espaço privilegiado da luta política.
A história política recente ajuda a entender por que razão a onda reacionária se impôs, ainda que tenha chegado relativamente mais tarde, de forma tão rápida no nosso país.
Nesse sentido, uma análise séria não pode prescindir de se deter na experiência da chamada geringonça. Começando por não esquecer que, no período imediatamente anterior – o da Troika, após três anos duríssimos para milhares de famílias, a direita (PSD-CDS) conseguiu mais de 2 milhões de votos, apenas menos 150 mil do que quando assumiu o poder em 2011.
Mas é da análise das soluções de governação que se lhe seguiram que poderão advir elementos relevantes para se perceber o momento atual das esquerdas.
O advento de um acordo que permitiu ao PS governar com o apoio parlamentar de BE e PCP constituiu uma solução original e até então nunca experimentada, que provocou um natural entusiasmo no “povo da esquerda”, alimentado nos primeiros anos pela recuperação de rendimentos e por um conjunto de medidas populares e de natureza progressista.
Mas é forçoso reconhecer, a esta distância, que essa solução se encontrava esgotada ao fim de dois ou três anos, não tendo havido a capacidade ou o interesse dos atores em presença para a fazer evoluir para uma agenda política socialmente transformadora. A manutenção das leis laborais impostas pela Troika ou a desistência de quaisquer medidas dirigidas à transformação voluntarista do modelo de crescimento económico vigente são dois dos seus mais significativos aspetos, que as medidas inquestionavelmente positivas não permitem obliterar.
Ao mesmo tempo, não deve ser escamoteada a mobilização massiva das forças liberais-conservadoras durante o período da geringonça. A reação à ameaça de uma hegemonia de esquerda no pós-2015 traduziu-se, nomeadamente, numa presença esmagadora e agressiva nas redes sociais, bem como no advento ou reforço de poderosos meios de combate ideológico, dotados de avultados financiamentos, como o grupo Observador, o +Liberdade ou as fundações, cuja produção pretensamente neutra ganhou espaço nos meios académicos e nos media. A criação de novos sujeitos partidários (Chega e IL) culminou, no plano partidário, os novos contornos de uma realidade política do país.
O que se seguiu, com o abandono, sobretudo por parte do PS, de entendimentos à esquerda pôs fim a esse processo, com culpabilização mútua, ditando o regresso à era de uma certa confrontação à esquerda.
Os anos seguintes foram muito condicionados pela pandemia, em que o governo de António Costa demonstrou inegável capacidade para gerir a crise, enfrentando dossiês difíceis e conseguindo tirar algum partido de um contexto internacional que favoreceu a minimização do seu embate na economia e nas finanças públicas. Os partidos à sua esquerda confrontavam-se com uma evidente incapacidade em fazer uma oposição capaz de mobilizar setores sociais que haviam enaltecido a ”geringonça”. Pagaram esse preço nas eleições de 2022.
O período da maioria absoluta PS confirmou o afastamento de uma opção socialmente transformadora, pese embora a existência de diversas políticas de cariz progressista e de protagonistas empenhados em encontrar soluções para problemas que afetavam largos setores da população. A obsessão pelas “contas certas” fez persistir a opção política fundamental de manutenção de um quadro de gestão de um certo status quo, sem enfrentar os problemas estruturais do país, sem uma aposta determinada num novo modelo de desenvolvimento económico, num reforço da provisão e da melhoria da qualidade de serviços públicos (na saúde e na educação, acima de todos os outros) ou no combate à crise da habitação, por exemplo.
O golpe palaciano que conduziu à realização das eleições de 2024 pôs a nu a fragilidade de uma estratégia política baseada no simples cálculo dos benefícios eleitorais. O governo terá menosprezado o descontentamento generalizado, para o qual a crise de inflação, consequência da pandemia e da guerra na Ucrânia, agravado pela incapacidade de suster o aumento contínuo dos preços da habitação. O cansaço com o modelo de governação de António Costa manifestava-se já sob diversas formas, mas o abalo que já se havia estendido por diversos países da Europa não parece ter servido de alerta à navegação.
- Um contexto internacional perigoso
No plano político internacional, acentuam-se hoje os sinais disruptivos da ordem que vigorou desde os finais da 2ª guerra mundial, impulsionados pela nova postura da administração Trump nos EUA. Pela primeira vez, a potência hegemónica põe em causa os alicerces do sistema de alianças que ela própria criou, provocando a desorientação estratégica nos seus aliados europeus. À imposição de despesas militares excecionais, seguiram-se novas formas de chantagem, designadamente com base nas tarifas comerciais, e a ingerência direta em disputas políticas internas a cada país, culminando com a ameaça de anexação ou aquisição da Gronelândia.
Em pouco mais de um ano, a grande aliança contra a Rússia, alicerçada na defesa da Ucrânia contra a criminosa invasão russa, parece ter caído por terra, e com ela o velho desígnio de levar a NATO até às fronteiras da Rússia, preconizado pela estratégia norte-americana do final do século passado, que granjeou forte apoio entre alguns países europeus. A Ucrânia e a sua integridade territorial poderão ser agora moeda de troca entre as grandes potências globais.
Em simultâneo, a crescente desvalorização do direito internacional e a objetiva incapacidade das grandes instituições (a ONU, em especial) em fazer valer a sua autoridade deram azo à emergência de uma nova ordem baseada no poder quase exclusivo da força militar. Desta nova realidade, são exemplos sintomáticos a relativa complacência das instituições globais perante a situação na Palestina, dilacerada pelo genocídio em Gaza e a imposição de um regime de apartheid nos restantes territórios ocupados ou controlados por Israel, no Sudão, com a sua população massacrada numa guerra executada por interpostos exércitos ao serviço das potências do Golfo.
As recentes intervenções dos EUA na Venezuela e agora no Irão, em articulação com o governo genocida de Israel, são uma ilustração dramática da nova ordem internacional baseada na força, que está a colocar o mundo à beira de um quadro de conflitos globais de desfecho imprevisível.
Entretanto, na Europa, reacende-se o apelo às armas, alimentado pela fobia de uma eminente invasão russa, pondo em risco ativos fundamentais que, outrora, lhe granjearam um papel de relevo na cena internacional – o exemplo do seu modelo social e a potencialidade do seu papel nos combates globais pela sustentabilidade e a preservação ambiental, contra as alterações climáticas, pela cooperação e pela resolução diplomática de conflitos e em defesa do multilateralismo.
- E agora?
Os tempos que correm e os que avizinham serão, certamente, tempos particularmente difíceis, para uma esquerda fragilizada, tal como o estão muitas formas de organização popular.
Em Portugal, o contexto é ainda marcado por condições particularmente adversas no plano da comunicação. São muito evidentes os sinais de monopolização dos media, com a crescente concentração de propriedade, a degradação dos mínimos de pluralismo a que estes estão obrigados e a tendência inexorável para a substituição do jornalismo pela lógica das audiências que os aproxima, a cada dia, dos mecanismos prevalecentes nas redes sociais.
É em tempos como este que é preciso afirmar que a desistência não é uma opção admissível. Urge experimentar novas soluções, novas formas de intervenção cívica e política.
O nosso ponto de partida é que a crise que abalou o quadro partidário à esquerda não tem uma natureza conjuntural. Os sinais são demasiado evidentes. Não se trata apenas de verificar que, em termos numéricos, PS, PCP e BE perderam mais de um milhão e meio de votos. Há diversas expressões de perda de vitalidade e de influência social, em especial entre as classes populares, que se vêm desenvolvendo ao longo de anos.
Nesse contexto, muitas das reações que vêm emergindo do quadro partidário não antecipam ainda caminhos de inovação na ação política que a situação nos exige. Perante as opções de “recuperar ao centro” ou de “fechamento” em torno de núcleos de resistência, não basta clamar por iniciativas de convergência ou promover alianças eleitorais conjunturais, por muito mérito que essas iniciativas isoladamente comportem.
Há que ir mais longe, o que implica reconhecer a situação atual, em toda a sua dimensão social e cultural, combatendo as ilusões, tanto da parte de quem muito perdeu, como de quem algo ganhou, quanto a protagonismos que isoladamente possam assumir. Este é um momento em que à esquerda se deve colocar a questão da superação das suas formas de organização e ação políticas.
O combate será longo. A greve geral de 11 de dezembro, com a convergência sindical e a inquestionável adesão popular, foi uma primeira expressão dos caminhos de mobilização e de resistência que importa trilhar. Mas muitos outros campos de ação se terão que impor.
A Associação Fórum Manifesto propõe-se contribuir, embora consciente das suas próprias limitações, para a busca de novos projetos mobilizadores que possam devolver à esquerda a energia necessária para renovar o seu projeto de esperança numa sociedade mais justa, recuperando para ele a confiança da maioria.

